sábado, 22 de maio de 2010

(72)


O dia em que conversei com Daniel Day Lewis.

Bom, primeiramente queria dizer que nunca tornei essa conversa pública por motivos éticos. Daniel Day Lewis pediu para que nada fosse divulgado, já que a promessa era que teríamos um bate-papo e não uma entrevista. Como aconteceu com William Miller em “Quase Famosos”, o acaso foi o grande responsável desse fato mais do que inusitado. Lá estava eu, uma criança de 11 anos em Trancoso, Bahia, a famosa terra da meditação e da paz interior. Lembro-me bem deste dia, que por incrível que pareça estava chuvoso e frio. Minha estádia na cidade era decorrente de uma viagem com a família, que desde o início fui contra. Não sou muito fã de excursões e passeios fora do meu mundinho.

O dia estava uma droga. O ônibus que levava todos quebrara no caminho a praia, ou seja, fomos a pé em meio a caranguejos e lamaçais. Ao chegar ao nosso destino, a chuva veio nos acompanhar.

Já instalados na barraca, devidamente protegida contra a força dos ventos e da água, começo uma briga com a minha família, que insistia em me forçar a contar o porquê do meu sumiço na noite passada. A minha vida particular pertence só a mim, até hoje não consegui explicar isso a eles.

Depois de muita discussão e fúria, parti rumo ao norte. O meu objetivo era andar até que a raiva se fosse da minha mente. Após 4 minutos de caminhada, sem nada a frente ou atrás, só com o som das ondas ao meu redor, me deparo com um homem sentado na areia. Com aparência esquisita, ele usava um chapéu longo, que tampava todo o seu rosto. Ele era alto e muito magro. Com aqueles olhos azuis, desde desde o princípio percebi que brasileiro ele não era. A sua frente, um par de sapatos que com muito cuidado e carinho tratava de limpar e engraxar. Aquela cena era no mínimo estranha, praticamente no fim do mundo, um homem estava sozinho tratando dos seus sapatos? Loucura demais para ser verdade. Procurei me aproximar dele e quando fui sentado ele logo me disse: “Não sou brasileiro, não falo português e não quero conversar”. Claro que ele não disse dessa forma, e sim com um sotaque pra lá de estrangeiro, mas consegui entender. Para quem não falava a nossa língua, ele se expressou muito bem, achei estranho, mas fiquei na minha.

Bom, sempre fui muito obediente, me sentei perto dele, porém em silêncio. Não fazia a menor idéia de quem ele fosse e não entendi o que ele estava fazendo ali.

Passados trinta minutos resolvi puxar conversa. Posso falar que não foi nada fácil, o medo daquele homem ficar com raiva e me bater era imenso. Eu uma criança, que estava fugindo dos pais e mais do que isso, eu fugia da minha vida, da pessoa que eu era.

Quando perguntei quem ele era, fiquei surpreso com a resposta. Com um tom bem baixo ele disse: Sou Daneil Day Lewis e você?

Tive que responder, não estava em posição de questionar aquele homem.

Me chamo Diego, estou de viagem com a família.

Entendo, só “arranho”o português, estou aqui há uns dois anos. Muitos pensam que estou recluso na Itália, mas prefiro o Brasil, a Bahia. Passei três anos sozinho na Europa, só eu e meus sapatos. Desde 99 que moro aqui.

Entendi, mas porque você escolheu ser sapateiro?

Olha, não sei se vc me conhece, mas sou um ator de cinema muito famoso. Até ganhei aquele tal de Oscar. Mas descobri que não era isso o que queria para a minha vida. Sempre vivi cada personagem intensamente. Quebrei costelas, peguei pneumonia, aprendi a fazer cigarros indígenas, lutei boxe e rezei como ninguém. Sabe o que tudo isso me rendeu? Fama, dinheiro, fãs e um casamento. Mas nunca a felicidade que eu queria. Sempre gostei de trabalhos manuais, então tentei ser sapateiro na Itália, quando estava por lá, enxerguei que aquele sim era o meu destino. Resolvi fazer isso. Foi assim que tudo aconteceu.

Mas a fama, sucesso e dinheiro, isso não era bom?

No início sim, mas a vida é muito mais que isso. Quando comecei, queria ser o melhor ator do mundo, mas isso se tornou pequeno depois que eu consegui. Acho que quando cheguei ao topo, vi que a felicidade não estava plena porque eu queria apenas provar para os que duvidavam de mim que eu era capaz. No fundo, não queria nada daquilo. Eu gosto mesmo é de lidar com sapatos e outros trabalhos manuais. Estou fazendo redes de pescador e pretendo aprender a dançar capoeira em breve.

Mas a vida de ator, você não gostava?

(Lagrimas) Gosto, mas o que me garante que tudo não será como antes? O que me atraía era a chance de viver alguém que eu jamais seria. Isso que é genial. A vida não imita a arte, a arte é a vida quando estou em um set. Já fiquei em uma cadeira de rodas e ali aprendi a dar o devido valor ao meu corpo. Me cuidei melhor, fiquei mais responsável e posso dizer que vivo uma vida saudável. Tudo isso porque senti na pele o que é viver sem poder andar e mexer o meu corpo. Olha, não pense que a vida é eterna e que tudo dará certo porque tem que acontecer. Isso é mentira. Nada acontece porque tem que acontecer. Primeiro é preciso acreditar em si mesmo, somos capazes de tudo, tudo mesmo. Porque uns tem sucesso e outros não? Superioridade? Nada disso, é tudo confiança. Sonhe alto meu amigo, confie em você, seja corajoso, não deixe de lutar jamais, porque neste corpo, a vida é uma só. Nunca deixe que a dúvida tome conta de você, se arrependa, mas sempre tentando e não lamentando.

Por que você está me falando tudo isso?

Porque não? Qual o motivo de eu me negar a falar com uma criança, que está apenas começando na vida. Quem dera eu com a sua idade, faria quase tudo diferente. Já vivi muito, fiz coisas que poucas pessoas no mundo fizeram, e mesmo assim não foi o astante. Se eu pudesse realizar um sonho, queria volta aos meus 15 anos. Preste atenção, nunca deixe que alguém zombe da sua idade. O tempo é o senhor da razão, mas nos somos os atores, aqueles que fazem tudo acontecer. Você pode ser um senhor de 70 anos e se comportar como uma criança. Quando mais jovem, maior a chance de aprender e principalmente concertar os seus erros. É isso que nos diferencia dos outros, os erros. Só se aprende errando meu amigo, não tenha vergonha de cair desde que você consiga se levantar.

Quando ele acabou de falar, se levantou e foi embora.

Por que você esta indo?

Minha missão por aqui acabou. Espero que tenha ajudado a sua jornada. Uma última coisa, seja grande, sempre. Não deixe que a sua mente lhe censure. Podemos lidar com tudo, desde que confiarmos que seja possível. Não se esqueça, somos a imagem do criador. Até nunca mais.

Bom, achei tudo aquilo muito estranho, muito louco. Depois de muitos anos descobri que Daniel Day Lewis nunca veio ao Brasil e que ele foi sapateiro na Itália por anos, até volta a atuar em "Gangues de Nova York". Mas tudo foi tão real, sonho não era, nem alucinação. Acho que é mentira mesmo, devo te afogado no mar e acordado na praia, pensando na minha razão de existir. Deve ser isso, só pode.

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